Passeata dos 100 mil, em 1968

Tá rolando um baita burburinho nos meios de comunicação sobre 1968. Claro, em 2008 comemoram-se 40 anos daquela época que mudou pra sempre o conformismo e a capacidade de revolução do homem. E não, isto não é um manifesto esquerdista.

Tenho uma simpatia pelo ano de 68. Não vivi aquela época, mas todo jornalista carrega um pouco de ranço pela perseguição empregada à mídia que aprendemos na faculdade. Tanto é que meu TCC herdou bastante disso, mas conseguimos chegar até lá mais imparciais. Já fui mais esquerdista, hoje sou algo meio indefinido, perto do centro.

Por ter pesquisado a fundo 68 e os Anos de Chumbo, ainda acompanho o tema de perto. Nesta semana li a matéria da Revista Época e estou devorando o livro sobre Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a contribuição mais importante e sintetizada dos Beatles para a música pop. E desse livro tiro uma citação do prefácio, muito bacana, que traz uma reflexão sobre esse saudosismo todo dos anos 60:

Em seu livro Revolution in the Head, o jornalista Ian MacDonald afirma sem rodeios: “Qualquer um que não tenha tido a sorte de ter entre 14 e 30 anos em 1966-67 jamais conhecerá a comoção vivida durante esses anos na cultura popular”. Como alguém que viveu essa mesma “comoção” mencionada por ele no auge do punk, considero a visão de MacDonald das mais arrogantes, pra não dizer egoísta (”Eu estava lá e você não estava… na na na na na-na…”). “Comoção” é algo muito subjetivo, e a nostalgia pela juventude seja a dos tempos hippies de MacDonald ou a das noites bêbadas de Legs Mcneil no Bowery, não nos diz nada sobre o ambiente, a não se que eles se divertiram. A criatividade que saiu em disparada quando a jaula do decoro se abriu é o que me interessa aqui (ali e em todo lugar). Socioólogos, saiam pela porta onde se lê a placa “Cães Ferozes”.

Partindo desta citação, pensei comigo mesmo o quanto ainda estamos endeusando esta época e esquecendo de responder perguntas básicas sobre ela: qual sua real dimensão sobre a cultura? O quanto ela influenciou a política e a sociedade? Qualquer reposta será um chute próximo, mas não certeiro. Pra cada um os anos 60 tem uma importância diferente. Se para nós, jornalistas, o período foi de união e inteligência contra a censura, para outros foi a chance de pegar em armas por um motivo qualquer, de ambos os lados.

Culturalmente, estamos nos aproximando de um entendimento mais sólido sobre 1968. Socialmente, ainda apanhamos por carregar ranços das brigas ideológicas que não nos deixam refletir sabiamente e deixar um registro digno para as gerações futuras. Tive essa noção desde a época do meu TCC, mas não consegui ampliar essa visão o quanto queria no resultado final. Tinha até a ambição de continuar um estudo futuro sobre isso, mas no momento não me vem a vontade.

Uma coisa eu sei: 1968 (e 67, também, vá lá) foi o decreto final para que a humanidade finalmente contestasse mais e aceitasse menos. Se hoje temos uma democracia nova, engatinhando se comparada aos 100 anos de república dos EUA, é porque houve um manifesto contra o que estava estabelecido.

A principal lição que fica: não gostou, reclame.