Já contei que eu ainda não dirijo? Poizé. Sou daqueles transeuntes que chegou até os 27 anos feliz com sua condição de pedestre, sem nenhuma objeção. Só que a idade chegou e com ela muitos compromissos: família, namorada, amigos… dessa vez não dá pra passar batido sem fazer uso de um carro para locomoção. Então, lá vou eu tirar minha carta de motorista.

Eu considero que dirigir é uma coisa estressante, principalmente para quem vive em São Paulo, que agora bate recordes de trânsito todos os dias. Sempre tive essa impressão e muito dela me influenciou a não tirar minha carta. Vou virar motorista puramente por necessidade. Quem me dera pudesse ser um pedestre comum até o fim da vida. Doce ilusão.

E infelizmente estamos num país em que, por mais que as regras de trânsito sejam duras e as multas muito caras, os motoristas ainda não aprenderam a se comportar devidamente. Cenário pior, impossível.

Pois bem, é nesse caos que eu vou virar motorista.

Estou no meio do processo, no começo das aulas práticas. Para mim não é algo tão difícil, mas a parte prática me assusta um pouco. Eu peguei poucas vezes em um volante, e mal sei controlar um carro. Vai ser como aprender algo do zero.

Percebi algumas coisas durante esse tempo, a maioria bem tristes. A mais cruel foi conhecer o domínio público de que o Detran (que regula as normas de trânsito), em Sampa, é um dos órgãos públicos mais corruptos que existe. Não é nada de novo. Apesar da modernização pela qual o Detran passou nos últimos anos, pagar para comprar uma habilitação é uma conversa normal dentro das auto-escolas. E se há abertura para isso é com a conivência de funcionários corruptos do Detran. Até o momento ninguém me ofereceu nada do tipo.

Pelo pouco que entendi conversando com várias pessoas envolvidas no processo, todo dia despachantes e donos de auto-escola têm que ‘molhar’ a mão de funcionários do Detran para que os processos de seus clientes consigam ser concluídos em tempo. Um selo num processo pode demorar uma semana para sair. Se o ‘café’ for pago para o funcionário do Detran, pode sair na hora. Algo em torno de R$ 50 a 100 para um processo ser agilizado.

É ruim para quem quer trabalhar de maneira correta, mas a corrupção já está institucionalizada lá dentro: todos os despachantes se aproveitam desse esquema. E isso não ocorre só com processos e burocracia: um aluno que não passou no teste prático pode ‘comprar’ uma aprovação, sem problemas. Estima-se que isso custe entre R$ 300 e 500, dependendo da auto-escola.

Passar pelo processo de tirar a habilitação é constatar e ter clara essa noção. Há corrupção no Detran, sim, e pior: por causa dela é que as coisas andam. Já imaginou se os despachos no Detran ocorressem sem essa “agilidade”? Uma carta poderia demorar mais de seis meses para sair.

É preciso refletir para entender porque isso acontece de forma tão escancarada. Os funcionários do Detran ganham pouco. Um edital de 2006 convocava para uma vaga de oficial administrativo, que oferecia R$ 510 de salário. Por aí você faz as contas: por que ganhar só R$ 510 de salário se eu posso ganhar R$ 100 quase toda semana extorquindo despachantes? Claro, já que todo mundo faz isso…

Uma CPI para investigar o Detran em SP nunca saiu do papel, e acho que não vai sair. Até porque acabar com a corrupção no Detran pode ser a mesma coisa que desativá-lo. É conivente manter essa roda de corrupção funcionando: as carteiras são compradas, os motoristas chegam às ruas com uma péssima formação, recebem multas altíssimas que acabam sendo pagas… ao Detran. Ciclo fechado. Não se mexe em time que está ganhando. Ou melhor, faturando.

Então.. já contei que vou tirar minha carta de motorista?