Você realmente é gentil com o que conhece?
Existe um hype na internet sobre “compartilhar conhecimento”. Cada ‘app novo’ nosso de cada dia tem que ser algo extremamente flexível para mostrar o que sabemos, o que fazemos. Tudo tem que ser em prol do compartilhamento, do sharing. Mas tenho uma pulga atrás da orelha com essas coisas.
A foto que ilustra este post me levou a refletir muito isso desde segunda-feira. É uma revista Piauí, a edição deste mês. Jogada no lixo do banheiro de uma multinacional daqui de São Paulo. Tirei logo que vi a cena. Pensei: ‘porra, que emblemático isso’.
Não vou entrar no mérito de qualidade dos artigos da Piauí, senão vou entrar numa saara de debates que não me interessa. Meu ponto é o desperdício de conhecimento. O ‘cidadão’ que fez isso pode não ter gostado da revista, e ele faz o que quiser com ela, afinal pagou pelo exemplar.
Mas ele tinha outras opções.
Por exemplo: ceder a revista a outra pessoa interessada. Ou mesmo emprestá-la a quem nunca a leu, ou quem poderia se interessar. Ou também quem não tem dinheiro para gastar com um exemplar desses.
Ainda: doar a revista a uma biblioteca pública.
Longe de mim ditar o que você deve fazer com suas revistas. Mas gostaria de levar à reflexão. Este é um país cuja sociedade se cobra constantemente pela falta de educação e ensino de qualidade. Porém, a mesma socidade não fomenta uma cultura de compartilhar o que aprende com quem necessita. Essa mesma pessoa que jogou a revista fora deve ser alguém que se nega a ajudar um colega de trabalho quando o programa de e-mail dele trava. Ou o deixa falando besteira em uma reunião sobre alguns números que ele mesmo sabe de cor.
Não há gentileza.
Eu parto do princípio que todo conhecimento é válido. Se será necessário, é outra história. O lema deste blog não é por acaso. Sou um cara que busco coisas novas todo dia, conhecimentos diferentes. Mas busco compartilhar isso, dentro e fora do meu trabalho. Graças à internet, o alcance do que aprendemos é infinito. Mas também é cômodo. Adianta eu compartilhar com vocês minhas leituras no Google Reader se não comento desses assuntos com meus colegas na hora do almoço? Ou jogo uma revista nova no lixo?
Não é à toa que consultorias de gestão de conhecimento estão em alta. As empresas estão pagando caro para despertar em seus colaboradores a disseminação do que eles conhecem, um ativo importantíssimo no mercado de hoje. É uma questão de cultura social. As pessoas só vão se ajudar através da sabedoria coletiva quando tiverem bons exemplos e se sentirem motivadas a isso. Não só no mundo online que nos dá muitas ferramentas para isso, mas no offline também. Não é porque o martelo existe que o marceneiro nasce, e sim porque existe a vontade de exercer a marcenaria.
É muito bom levar algo novo a pessoas que não conhecem algo. Quando alguém se predispõe a dar um curso em sua empresa sobre um assunto que vai agregar ao trabalho de todos, é knowledge share puro. Ou quando você junta revistas velhas em casa e encaminha para doação. Mesmo quando envia por email um link interessante que leu, ou uma informação importante. Sem prepotência, apenas… gentileza.
Não dá pra esperar que as pessoas tenham as mesmas reações que nós, é uma questão bem franciscana mesmo: “fazer o bem sem olhar a quem”. Há interesses envolvidos, lógico. Mas levar adiante o que aprendemos, não importa o valor do aprendizado, ajuda a construir uma cultura de dação, de entrega, de beneficiar o próximo.
Sem auto-ajudismo, lembre-se: gentiliza gera gentileza.
E vocês, o que acham?







Vc sabe que pra mim o “gentileza gera gentileza” só pode ser aplicado em alguns casos. Nas ruas, não dá. O pessoal é mto mau educado aqui. Se vc vai lá todo feliz querendo ajudar, a pessoa nem te dá um obrigado. Então, foda-se. Hoje em dia, sou gentil no ambiente de trabalho, em casa, com as pessoas que gosto. Não que eu seja mau educada com as outras, mas simplesmente prefiro não demonstrar nada. Em alguns momentos, a gente resiste e volta a tentar ser legal com os outros, mas dá uma puta frustração qd o outro nem liga.
Tô começando a me confundir, acho que vou focar mais na parte da revista ter sido jogada no lixo: enquanto tem um monte de gente que ainda participa da campanha Perca um Livro, deixando as obras que mais curte em locais públicos para outros terem a oportunidade de encontrar, outros têm esse ar atrasado de “não serve mais pra mim, acabou”. Ridículo isso. Eu espero que a pessoa que tenha jogado essa revista no lixo veja esse post e fique morrendo de vergonha. Pq eu tb estou, mas ainda bem que é só vergonha alheia.
Verdade Anderson, compartilhar conhecimento é uma gentileza. Um comportamento sutil e fundamental pro crescimento da sociedade e do indivíduo. Acho que a gente vive entre duas correntes: a das pessoas que compartilham esse pensamento e, por conseqüência, essa atitude e das pessoas “nem aí”, que jogam conhecimento fora. Sem querer ser Polyanna, muito bacana olhar em volta e ver que tem bastante gente nesse primeiro grupo. Gostei do tema!
bjs
Boa, Anderson, muito boa! No cerne da questão. Mais que cultura de doação, tem a história do desperdício: não quero mais, vai pro lixo.
Enquanto isso montanhas de gente vivem dele (quando a gente não as joga no lixo também…).
Adorei. Vontade de replicar muito, muito.
bj