[The Blues] Acabei de assistir “Warming by the Devil’s Fire”

Vamos àquela clássica explicação: reconheço, não blogo aqui faz tempo. Ensaiei voltar e não deu muito certo. A vida mudou de lá pra cá. Agora trabalho em casa e gerencio meu próprio tempo. Só nas últimas semanas consegui colocar as coisas mais em ordem. O que me deu um tempo para assistir um box de DVDs que há muito tinha comprado mas nem tinha saído do plástico: a coletânea de documentários The Blues, de Martin Scorsese.

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Na verdade a série The Blues, que foi ao ar somente na rede americana PBS, não é obra somente de Scorsese. Ele apenas supervisionou a direção de seis dos filmes e dirigiu um deles. A idéia é cada um dos diretores dar a sua perspectiva sobre o blues, não importa o quanto documental ou ficcional seja e com seu próprio estilo. O fio que guia todos os filmes é entender como o blues se transformou em uma linguagem universal e influenciadora de tantas outras coisas a seguir. A série gerou tanta repercussão nos EUA que até um programa educacional foi criado para levar a história do blues para as escolas. Também pudera, o blues é o berço de praticamente toda a música americana do século 20.

A série saiu em DVD no Brasil pela Focus Filmes e reunida em dois tipos de boxes: um de madeira, lançado recentemente, e uma lata feita com exclusividade para venda na Livraria Cultura. É essa que eu tenho. Acho que agora só tem o box de madeira pra vender. Nem preciso dizer: recomendadíssimo.

Foto da minha lata aberta

Quando comecei a ver o primeiro filme, percebi que a lata ficou muito tempo fechada e eu devia ter assistido os filmes antes. É uma preciosidade. Por isso resolvi desenferrujar o meu blog para falar de cada um dos 7 filmes da lata. Eu gosto de blues, mas não conheço tão profundamente a história do ritmo. Por isso escrever também será um ato de aprendizado pós-filme. Pode ser até que no review do 7o. filme eu mude completamente de idéia. Vamos ver no que vai dar. Vou tentar assistir pelo menos um dos filmes por semana e contar aqui as minhas impressões de cada um.

O primeiro que tirei da lata foi "Warming by the Devil’s Fire” (“Se aquecendo pelo fogo do diabo”), do cineasta Charles Burnett. É um misto de ficção com realidade: Durante a década de 50, um garoto se muda para o Mississipi para passar uns dias com seu tio, um fã ardoroso de Blues. Ele o leva para conhecer alguns de seus amigos e lhe apresenta os mais diversos blues antigos e suas histórias. O filme foca nas tensões de geração entre a raiz gospel do blues e as ligações diabólicas (como o pacto que Robert Johnson teria feito com o diabo para tocar melhor, por exemplo). Isso se mostra também quando o garoto, de origem católica, se confronta com o estilo de vida boêmio do tio.

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“O Blues tem que vir da verdade. Se não for verdade, não é blues.”

Son House

O filme tem dezenas de cenas de arquivo que eu jamais pensei que existissem. Me chamaram a atenção em especial as de Son House, autor dessa peculiar frase acima, e a de Elizabeth Cotten, uma tiazinha que naquela época já tocava o violão numa espécie de posição “slide”. Conheci também a história de Mamie Smith, a primeira a gravar um blues vocal. E tem uma performance curta de John Lee Hooker cantando a clássica “Boom Boom”.

É legal conhecer os lados bons e maus do blues. No final das contas nos sentimos como o garoto, que na viagem conhece não só uma realidade completamente diferente, mas um ritmo e um estilo de vida que intrigam e atraem. A ligação com o demônio e a igreja é intensificada pela liga da história, quando o garoto vai entendendo e ligando os pontos do que acontece com o povo que sofre com o trabalho duro, mas quer se fazer entender pela música.

Charles Burnett, o diretor, explica que não há nada de autobiográfico no filme, mas sim algumas experiências que viveu. Nas palavras do diretor:

“O blues engloba todas as emoções: as pessoas escutam blues porque ele te conecta aos seus instintos básicos. E dialoga com as circunstâncias do povo negro naquela época. Quando você observa a atmosfera que cerca o blues – racismo, trabalho duro e pouco para mostrar: exploração, humilhação e a vida explodindo em fagulhas, onde tiros e lutas de faca eram comuns – você tem um retrato da sobrevivência e da vontade de viver e de se auto-destruir ao mesmo tempo.“

Isso é legal em um documentário. Muita gente pode torcer o nariz pela ficção embutida, mas eu gosto. A história tem o papel de fio condutor e te guia mais facilmente pelos fatos todos do que um documentário corrido, onde se cospem datas a todo momento.

Bom, sobre o primeiro filme é isso. Ah, eu não vou assistir os filmes na sequência correta, pois acredito que não há necessidade. Quando eu ver o próximo, volto aqui.

  • Rogerio

    Vc prefere a edição em lata ou a edição com o box em madeira? Os reviews na Amazon não são muito positivos, mas acho que esta coleção é obrigatória pra quem gosta de blues.