O Efeito Obama foi causado por… e-mails?
Na semana passada fui convidado pelo Grupo Santander a participar do evento “O Efeito Obama”, um seminário sobre as práticas de marketing que levaram Barack Obama à presidência dos EUA. Uma das palestras mais concorridas era justamenta a primeira, de Ben Self, sócio da Blue State Digital e responsável pela organização da campanha online de Obama. Ou seja, ele era o homem que trouxe US$ 500 mi para a campanha, e 75% desse valor foi arrecadado online. E existem boatos que ele possa trabalhar na campanha de Dilma Roussef no ano que vem. Não era a toa que o homem chegou e saiu cercado.
Infelizmente só acompanhei o evento no primeiro dia, por conta de outros compromissos. Mas valeu cada minuto. Principalmente pela revelação de Self sobre como a campanha online teve tanto sucesso. O segredo?
E-mails.
Poizé, simples assim. Ou quase.
Eu fiquei besta quando ouvi isso. Mas é ridículo de tão simples. A campanha não fez nada mais do que reunir pessoas que se engajariam na campanha de Obama em um evento e pegou o mailing dessas pessoas. Como 99,9% dos eventos fazem. A grande diferença foi o que eles fizeram com esses e-mails. O pessoal lá na rede do Valor das Idéias explica melhor.
Antes de cada evento reunindo eleitores e simpatizantes, funcionários da campanha solicitavam o e-mail das pessoas, a fim de que pudessem ser contatadas posteriormente. Embora possam soar obsoletos em tempos de mídias sociais e Web 2.0, e-mails provaram ser ferramentas fundamentais para o envolvimento do maior número de pessoas possível. Através deles, o comando da campanha manteve contatos regulares com cada um. Ao contrário da prática comum, inclusive no Brasil, de convidar apoiadores ricos de uma candidatura para comparecerem a jantares suntuosos de arrecadação de valores, através de e-mails a campanha de Obama estimulou cidadãos comuns a doarem quantias pequenas (no começo, 5 dólares), acessíveis a qualquer um. Cada doador engajou outros; o site da campanha usou um aplicativo com Google Maps que mostrava a localização de cada militante, e qual a sua meta de cooptação de novos colaboradores em sua comunidade local. O resultado final: cerca de 13 milhões de e-mails voluntariamente informados para a campanha, formando uma rede que resultou em mais de 3 milhões de doadores individuais e cerca de US$ 500 milhões arrecadados de forma online.
Não houve aquele disparo imaginado de spam, mas sim uma conversação estabelecida por email para deixar o eleitor a par dos acontecimentos e mostrar como eles poderiam ajudar na campanha.
Saber disso me deixou estarrecido por várias razões. Primeiro, porque todo mundo faz coleta de mailing e quase nunca se fez esse uso tão humano do e-mail como eles fizeram. Segundo, porque isso mostra como somos burros e cada vez mais nos acomodamos e não reinventamos idéias que estão em casa mesmo, ao nosso alcance. O mantra da vez não é relacionamento, diálogo e outros “doiszerismos”? Pois taí a ferramenta mais básica do mundo, que funciona. Só o Facebook, Twitter e YouTube teriam o mesmo impacto que teve o e-mail na campanha de Obama? Creio que não.
Se isso pode dar certo no Brasil? Só se for feito da forma como aconteceu nos EUA. Lá foi de dentro para fora. Os internautas saíram para a rua com as suas instruções de e-mail e assim agregavam mais e mais pessoas que não estavam na internet. Imaginando que nosso país ainda não alcançou a cobertura total de pessoas conectadas, seria uma estratégia excelente. Mas como bem disse meu amigo Marcus, não é uma franquia nem receita de bolo. Vários fatores são diferentes. Nosso país tem uma cultura de comodismo em relação a envolvimento político. Aquela história de deixar o governo resolver tudo por nós, sabe? Fora o estigma de que todo engajado político é um corneteiro e só sabe bater panela.
Por isso mesmo, com ou sem Ben Self, 2010 será um ano eleitoral e tanto. A propaganda pela internet foi liberada. Temos uma inclusão digital no país que crescerá muito até lá. Mais gente com computadores significa mais eleitores informados, direta ou indiretamente. Como nos comportaremos perante as campanhas? E como faremos as nossas, em busca do voto certo?
Quem viver, verá. E votará.
Ah, agradeço aos amigos do Grupo Santander pelo convite. E se você quiser saber mais de como foram as demais palestras, visite a comunidade Valor das Idéias.







