A despedida do velho coronel e sua pistola
Essa é a única foto decente que tenho do coronel Erasmo Dias. É da época que fizemos um documentário de rádio para o nosso TCC, em 2003. Me lembro como se fosse hoje. Nós, já com algum histórico sobre ditadura militar na cabeça, fomos entrevistar o homem para nosso programa. Jamais pensei que ele fosse aceitar. O pessoal do meu grupo me chamou de louco, mas quando eu confirmei a data e o horário todos ficaram loucos. Pena que não deu pra ir todo mundo… mas pensando bem, foi melhor assim.
Entrevistamos o então vereador Erasmo Dias em seu gabinete na Câmara Municipal de São Paulo. Ao lado dele sua secretária na máquina de escrever redigindo algumas cartas a jornais e um capanga que ia fazer os jogos de loteria dele todo dia. Era uma mania dele fazer a fezinha toda santa manhã.
Não podemos dizer que fomos mal tratados. Ele não se negou a responder as perguntas, mas as respostas foram meio evasivas em alguns momentos. A inexperiência de um foca agora me arrepende, pois a gravação do áudio não ficou uma maravilha. O gravador (um daqueles de fita cassete, portátil) ficou em cima da mesa dele. Só que durante a entrevista ele batia muito com a mão na mesa para enfatizar o que dizia. Bem como a foto mostra.
Um dos momentos mais “perigosos” da entrevista, creio eu, foi quando ele contou uma história de protesto quando ele era deputado estadual na década de 80. Alguns estudantes vieram à porta de seu gabinete com flores e um mini caixão, para fazer um “enterro simbólico” de sua pessoa. Ele os deixou entrar. Ouviu o que cada um tinha a dizer. Então sacou uma arma, descarregou-a e deu uma bala para cada um deles. E esbravejou: “Isso aqui é para vocês chuparem, pois nem a morte por uma bala dessas é algo digno para vocês”. E tocou eles para fora do gabinete. Só que ele contou isso tudo do jeito mais real possível: puxando a arma na nossa frente. De verdade. Pensei que era minha última entrevista.
Só não deu uma bala pra cada um. Eu teria guardado isso comigo.
Outro momento muito denso da entrevista foi o depoimento do coronel sobre seu mais fiel soldado, Sérgio Paranhos Fleury. “Meu mais fiel escudeiro. Exemplar, um grande homem”. Nessa hora a sala ao meu redor perdeu o som da rua e tudo ficou num tom cinza. Eu tinha vontade de retrucar e dizer que aquilo era um absurdo, pois Fleury foi um dos policiais mais linha dura do regime. Mas outro aprendizado: ouvir. Ficar quieto e deixar o homem dar sua versão dos fatos. Mesmo que você não concorde. Isso enriqueceu muito a mim, meus colegas e a nosso TCC.
Saímos daquele gabinete tremendo da cabeça aos pés. Mas com muita história pra contar no documentário.
Conversar com o coronel responsável pela invasão da PUC nos anos 70 e por muitas outras coisas cruéis na época da ditatura militar mudou minha visão sobre certo e errado daquela época. Ainda acho muito errado a morte como instrumento de regência de um poder, seja qual for. Mas naquele dia eu vi nos olhos do coronel o quanto ele achava que estava certo. Cada um tem sua própria certeza no mundo. E o coronel tinha a certeza de que, pela vida inteira, lutava pela justiça. Pode até ser algo cego. Mas é a razão de vida de uma pessoa. Com isso a gente não brinca. Discute.
Hoje, 5 de janeiro de 2010, o coronel se foi. Deve ter levado sua pistola para bradar seu senso de justiça no céu. Ou onde quer que esteja.








Nossa historia arrepiante de uma das épocas mais nebulosas da história brasileira, se bem que a nossa história , me refiro a do país, sempre teve fatos ocultados pelos “absurdos gloriosos”,citando o Renato Russo,uma página da qual nunca saberemos aos certo, dependendo dos pontos de vistas de cada um , ou lado, já que no início a ditadura tava mais para cara de guerra civil.