O metrô cheio, a ascenção da classe média e os sem-noção


Foto: Flávio Aguiar

Hoje de manhã teve uma pane nos trens do metrô da linha norte-sul em São Paulo. Demorei uns 40 minutos para pegar um trem da estação Tucuruvi até a estação Paraíso. As plataformas estavam lotadas de gente, estressadas até a última gota de suor.

E nessas horas você vê como o ser humano tem uma capacidade incrível de ser mal-educado.

Presenciei a seguinte cena: uma mulher para na plataforma, com seu fone de ouvido no talo. Quer dizer, devia estar no talo, porque uma senhora parou pra pedir alguma informação pra essa moça e ela… nem ouviu, mesmo sendo cutucada. Parecia estar em outro planeta. Foi então que a senhora tratou de buscar a moça de volta pra Terra, dando um puxão violento na bolsa dela. Segue o diálogo:

- A senhora não tem educação, não?
- E você sabe pelo menos onde está agora?

Ficou uma disputa de stress que eu não sei quem ganhou, pois eu acompanhava tudo da janela e meu trem já ia partir.

Fui refletindo no caminho porque essas coisas acontecem. Não pode ser só má educação, sabe? Imagino que seja também a ascenção da classe média e baixa. É vero! Lembra do fone de ouvido da moça? Era um daqueles brancos que vem no iPod ou outro MP3 player qualquer. Se a moça não tivesse tão concentrada em seu som, talvez tivesse ouvido a senhora.

Hoje todo mundo tem um MP3 player ou um celular multimídia. Aí tem dois cenários possíveis: ou a pessoa se fecha no fone de ouvido bem acima dos 80 decibéis recomendados para a saúde auditiva, ou abusa da paciência dos companheiros de coletivo e escuta suas músicas sem fone mesmo, como os antigos radinhos de pilha.

O problema é que existe uma lei que proíbe o uso de aparelhos sonoros nos coletivos. A lei em si é dúbia quanto ao entendimento, mas o bom senso comum é que você não pode ouvir música em ônibus e trem sem fone de ouvido, certo? Não é bem o que acontece na maioria das lotações.

Outro dia vi que duas meninas ligaram seus celulares como se fossem radinhos de mão e começaram a ouvir alguns funks novos que baixaram da internet. De ‘dança do créu’ pra baixo. Sem-noção total. E ninguém reclamou! Eu ia falar com a menina, mas a lotação estava cheia e não dava pra chegar até ela.

Essa história dos celulares e MP3 é a que dá mais pano pra manga. Já é fato que com o cenário econômico dos últimos anos as classes C, D e E tiveram um crescimento no seu poder de consumo. Isso considerando os centros urbanos, mais suscetíveis ao alcance da propaganda massificada. E isso dá margem para que os sem-noção usem seus celulares como se estivessem no quarto de casa, como se todo mundo gostasse da mesma música.

Na verdade, é um exercício de descidadania. Ninguém é obrigado a escutar sua música. E se você estiver com dor de cabeça, isso só vai potencializar a dor.

O correto nestas situações é nem se estressar com as pessoas: anote os dados: placa, linha e número do veículo e reclame com a empresa responsável. Dá certo. Já ouvi da boca de cobradores (pelo menos aqui em São Paulo) que a reclamação chega neles e os fiscais passam a pegar mais no pé.

E nos casos das pessoas com fone de ouvido em decibéis altíssimos, o melhor é deixar quieto e discutir a questão em casa, com a família, para que evitem esta cena. Mas eu não discordo totalmente da senhora indignada do metrô. Algumas pessoas só entendem as coisas na base do solavanco mesmo. Infelizmente.

Steve Jobs mexe com você?

Daqui a pouco Steve Jobs, CEO da Apple, vai fazer seu keynote de praxa na MacWorld 2008. De cara, podemos esperar novidades com a marca da maçã prateada mais querida do mundo. O interessante é a ansidade da mídia especializada para o discurso. E também dos geeks, fãs da Apple.

Não é pra menos. Jobs deve ser o Henry Ford moderno. Aquele que fala algo e todo mundo segue, quer fazer igual, quer participar do que ele participa, quer ser amigo de infância, de viagem. Uma das cabeças mais inovadoras justamente porque se preocupa com a facilitação da tecnologia para o usuário. Vide o iPhone, por exemplo: os geeks não gostam muito do aparelho, dizem que há outros similares no mercado com funções melhores (e é verdade). Mas não dá pra negar que o iPhone é o smartphone mais amigável do mundo. A usabilidade, os menus, as funções sem encrenca… é uma outra experiência. E de experiências Jobs entende. E por isso a Apple é amada: seus produtos são fáceis e lindos. Simples assim.

Por isso qualquer anúncio de Jobs é esperado com siricoticos pela comunidade tech. Ele mexe com as pessoas, ditando caminhos e tendências. Um exemplo básico? Quando todos falavam de uma linguagem comum para acesso de páginas web em smartphones, o iPhone vem e dita que deve existir um formato padrão para o aparelho. E a compatibilidade vai pro saco… mas os donos de iPhone estão felizes da vida.

E você, também está ansioso pelo discurso do Tio Jobs? O blog Engadget vai fazer a cobertura ao vivo.

[UPDATE] E Jobs conseguiu de novo. Mais um gadget para ser falado durante o ano inteiro. O MacBook Air, o note mais fino do mundo.

De repente, todos os notebooks do mundo estão tão… desatualizados.

MacBook Air

A menor emissora de TV do mundo

Muro da TV Muro, onde é transmitida a programaçãoOntem, depois do almoço, a única coisa que me segurou antes da siesta foi um programinha mala na TV, o “Caçadores de Aventuras” (Rede TV!). Não pelos apresentadores, mas por uma das reportagens, que passou por Sabará, interior de MG na região metropolitana de Belo Horizonte – MG (tks, @raquelcamargo), e me apresentou à TV Muro: a menor emissora de TV do mundo.

A TV Muro foi montada em 1997. Na época, Francisco dos Santos, ou simplesmente Chiquinho, tinha uma câmera VHS, um videocassete, uma TV preto e branco e um link que encontrou sucateado no lixão próximo de sua casa. Aí ele gravava seu programa e mostrava para os vizinhos, na Rua São Francisco, em um aparelho de TV colocado em cima do muro de sua casa (esse da foto).

Para a maioria dos internautas a TV Muro não é muita novidade, mas pra mim foi uma coisa fantástica. Conhecer a emissora em casa de Chiquinho foi entender que a gente tem muuuuito a caminhar até a TV digital e interativa por completo. O cara gera toda a programação dentro de casa: telejornal, programas infantis, variedades e até uma versão do Big Brother! Para cobrir matérias fora da casa, usa uma “bicicleta link” que transmite ao vivo!

Chiquinho, o ‘faz-tudo’ da TV MuroChiquinho é o típico caso de ‘quem quer, vai à luta’. No meio de tanta gente produzindo conteúdo, ele é o produtor do meio que transmite. Sozinho, ele, a mulher e as duas filhas cuidam da programação inteira. E também já chamou a atenção do povo de fora: a rede SESC/Senac retransmite conteúdo pela TV Muro.

Aliás, Chiquinho precisa de um computador, a única coisa que falta no seu ‘estúdio’ para fazer uma programação bacana. Interessados em doar uma máquina podem visitar o site do programa Caçadores de Aventuras.

Não consigo pesquisar vídeos da TV Muro no YouTube aqui, mas quem achar algo me mande o link, por favor.

Meu blog novo (de novo)

Sim, mudei. Queria mais identidade, um nome, um lenço, um documento pra caminhar contra o vento. Agora tento entender o mundo. Vamos ver se eu chego perto, porque conseguir é uma utopia, vamo concordar.

Uma das minhas premissas pra 2008 é sofrer menos e gozar mais. E uma coisa que me deixa feliz é blogar (calma, as outras coisas estão em dia). Por isso decidi começar o ano (com o pé) direito: um nome, uma identidade, um template que finalmente eu gostei de verdade. Agora falta o conteúdo. Vamo que vamo.

O labs ainda fica no ar, mas só pra efeito de histórico.

Tendências para 2008? Nós num vamo pagá nada, é tudo free!

Foto: bethyb, by Flickr

Se eu me arrisco a prever uma tendência de 2008? Sim, e ela se chama gratuidade.

Hoje já temos uma boa gama de serviços grátis na internet, e muitos deles transcederam barreiras antes não imagináveis, como os softwares online. Estamos aprendendo a conviver com modelos econômicos diferentes, baseados na doação, na troca e na reputação de marcas e mercadorias. Isso vai bombar ainda mais em 2008 e virar tema de discussão forte com o lançamento do próximo livro de Chris Anderson, Free.

Chris Anderson é editor da revista americana Wired, e autor do bestseller A Cauda Longa, sobre a ascenção das economias de nicho. Este livro fez um barulho considerável nos últimos anos e praticamente todos os planos de negócio envolvendo web 2.0 citavam (ou se baseavam) nos conceitos do gráfico crescente de Anderson. Hoje, o conceito da Cauda Longa está mais do que disseminado no mercado. E creio que o mesmo acontecerá com o lançamento do ‘Free’: tendências serão ditadas de novo.

Tá bom, tendência é meio forçado, porque essa coisa da gratuidade já acontece há muito tempo. Mas como modelo de negócio ainda é pouco difundido. Creio que isso vai mudar depois do lançamento do livro de Chris Anderson, e será mais ou menos o efeito que A Cauda Longa teve: o conceito saiu da discussão casual para chegar aos modelos mais sólidos de negócio, e com alcance mais amplo.

Gosto desse conceito da gratuidade, mas é importante lembrar que nada nessa vida de graça (não, sem analogias e ditados populares). Tudo que é oferecido para você tem um custo. Quem paga por isso é que está por trás dos interesses. Produtos, serviços online, brindes, pacotes de viagem… existe um custo, mesmo que não financeiro por trás desses ‘mimos’ que ganhamos. Isso é antigo, o mercado de brindes já age assim. Agora a coisa se expande para produtos e serviços mais importantes e de maior valor monetários. Em 2008, acho que essa economia da gratuidade vai passar por uma transição de modelo de negócio restrito a uma pequena parcela do mercado a um modelo econômico mais sólido, sustentável (uma das maiores discussões sobre a gratuidade é como ela se auto-sustenta) e atrativo. Anderson vai dar as pistas no seu livro, com certeza.

Por isso, acho que esse novo modelo econômico tem tudo pra bombar em 2008 e finalizar essa transição. Bem mais do que em 2007.

1968, 40 anos depois

Passeata dos 100 mil, em 1968

Tá rolando um baita burburinho nos meios de comunicação sobre 1968. Claro, em 2008 comemoram-se 40 anos daquela época que mudou pra sempre o conformismo e a capacidade de revolução do homem. E não, isto não é um manifesto esquerdista.

Tenho uma simpatia pelo ano de 68. Não vivi aquela época, mas todo jornalista carrega um pouco de ranço pela perseguição empregada à mídia que aprendemos na faculdade. Tanto é que meu TCC herdou bastante disso, mas conseguimos chegar até lá mais imparciais. Já fui mais esquerdista, hoje sou algo meio indefinido, perto do centro.

Por ter pesquisado a fundo 68 e os Anos de Chumbo, ainda acompanho o tema de perto. Nesta semana li a matéria da Revista Época e estou devorando o livro sobre Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a contribuição mais importante e sintetizada dos Beatles para a música pop. E desse livro tiro uma citação do prefácio, muito bacana, que traz uma reflexão sobre esse saudosismo todo dos anos 60:

Em seu livro Revolution in the Head, o jornalista Ian MacDonald afirma sem rodeios: “Qualquer um que não tenha tido a sorte de ter entre 14 e 30 anos em 1966-67 jamais conhecerá a comoção vivida durante esses anos na cultura popular”. Como alguém que viveu essa mesma “comoção” mencionada por ele no auge do punk, considero a visão de MacDonald das mais arrogantes, pra não dizer egoísta (“Eu estava lá e você não estava… na na na na na-na…”). “Comoção” é algo muito subjetivo, e a nostalgia pela juventude seja a dos tempos hippies de MacDonald ou a das noites bêbadas de Legs Mcneil no Bowery, não nos diz nada sobre o ambiente, a não se que eles se divertiram. A criatividade que saiu em disparada quando a jaula do decoro se abriu é o que me interessa aqui (ali e em todo lugar). Socioólogos, saiam pela porta onde se lê a placa “Cães Ferozes”.

Partindo desta citação, pensei comigo mesmo o quanto ainda estamos endeusando esta época e esquecendo de responder perguntas básicas sobre ela: qual sua real dimensão sobre a cultura? O quanto ela influenciou a política e a sociedade? Qualquer reposta será um chute próximo, mas não certeiro. Pra cada um os anos 60 tem uma importância diferente. Se para nós, jornalistas, o período foi de união e inteligência contra a censura, para outros foi a chance de pegar em armas por um motivo qualquer, de ambos os lados.

Culturalmente, estamos nos aproximando de um entendimento mais sólido sobre 1968. Socialmente, ainda apanhamos por carregar ranços das brigas ideológicas que não nos deixam refletir sabiamente e deixar um registro digno para as gerações futuras. Tive essa noção desde a época do meu TCC, mas não consegui ampliar essa visão o quanto queria no resultado final. Tinha até a ambição de continuar um estudo futuro sobre isso, mas no momento não me vem a vontade.

Uma coisa eu sei: 1968 (e 67, também, vá lá) foi o decreto final para que a humanidade finalmente contestasse mais e aceitasse menos. Se hoje temos uma democracia nova, engatinhando se comparada aos 100 anos de república dos EUA, é porque houve um manifesto contra o que estava estabelecido.

A principal lição que fica: não gostou, reclame.